Vida e a obra de Caibar Schutel
No
dealbar do século XX, quando eram ensaiados os primeiros
passos no grandioso programa de divulgação do
Espiritismo, e quando a Doutrina dos Espíritos era vista
como uma novidade que vinha abalar os conceitos até
então prevalecentes sobre a imortalidade da alma e a
comunicabilidade dos Espíritos, dentre os pioneiros da
época, surgiu um vulto que se destacou de forma
inusitada, fazendo com que a difusão da nova Doutrina
tivesse uma penetração até então desconhecida.
O nome desse seareiro era Caírbar de Souza Schutel, nome
esse que se impôs, em pouco tempo, ao respeito e
consideração de todos. Ele jamais esmoreceu no propósito
de fazer com que a nova revelação, que vinha fazer o
mundo descortinar novos horizontes e prometia restaurar,
na Terra, as primícias dos ensinamentos legados por
Jesus Cristo quase vinte séculos antes, pudesse
conquistar os corações dos homens, implantando-se na
face do nosso planeta como uma nova força cujo objetivo
básico era de extirpar o fantasma do materialismo
avassalador.
Biografar um vulto dessa estirpe não é fácil tarefa, uma
vez que as suas atividades não conheciam limitações nem
eram bitoladas por conveniências de grupos ou de
pessoas. Conseqüentemente, tudo aquilo que se disser
sobre Caírbar Schutel não passa de uma súmula muito
apagada de uma vida cheia de lutas, de percalços e
sobretudo de ardente idealismo.
Caírbar de Souza Schutel, aos nove anos de idade, ficava
orfão de pai e, seis meses após, de mãe. Seu avô, Dr.
Henrique Schutel, interessou-se pela sua educação,
matriculando-o no Colégio Nacional, depois Colégio D.
Pedro II, onde estudou durante dois anos.
Animado de novos propósitos, abandonou os estudos e a
casa do avô, passando a trabalhar como prático em
farmácia, o que fez com que, aos 17 anos de idade já se
tornasse respeitável profissional desse ramo. Nessa
época abandonou a antiga Capital Federal e rumou para o
Estado de S. Paulo, onde se localizou primeiramente em
Piracicaba e logo após em Araraquara e Matão. Esta
última cidade era então um lugarejo muito singelo, com
poucas casas e dependendo quase que exclusivamente do
comércio de Araraquara, a cujo município pertencia.
Nessa humilde cidade, Caírbar Schutel acalentou o
propósito de servir à coletividade, o que fez com que
batalhasse arduamente para que Matão subisse à categoria
de Município. Conseguindo colimar esse desiderato, foi
eleito seu primeiro Prefeito. Homem dotado de ilibado
caráter, de ampla visão e de grande humildade, conseguiu
conquistar os corações de todos. Na política não
enfrentava obstáculos. Deve-se a ele a edificação do
prédio da Câmara Municipal, o que fez com seus próprios
recursos financeiros.
A política, no entanto, não era o seu objetivo, por
isso, tão logo ele teve a sua Estrada de Damasco,
representada pela sua conversão ao Espiritismo,
abandonou esse campo, passando a dedicar-se inteiramente
à nova Doutrina.
Conheceu o Espiritismo através de Manoel Pereira do
Prado, mais conhecido por Manoel Calixto, que na época
era um dos poucos e o mais destacado espírita do lugar.
Embora não sendo profundo conhecedor dos princípios
básicos da Codificação Kardequiana, Manoel Calixto
conseguiu impressionar o futuro apóstolo, com uma
mensagem mediúnica de elevado cunho espiritual, recebida
por seu intermédio.
Em seguida a esse episódio, Caírbar integrou-se no
conhecimento das obras fundamentais da Doutrina Espírita
e, tão logo se sentiu compenetrado daquilo que ela
ensina, fundou, no dia l5 de julho de 1904, o primeiro
núcleo espírita da cidade e da zona, denominando-o
"Centro Espírita Amantes da Pobreza".
Não satisfeito com essa arrojada realização, no mês de
agosto de 1905, lançou a primeira edição do jornal "O
Clarim", órgão esse que vem circulando desde então e que
se constituiu, de direito e de fato, num dos mais
tradicionais e respeitáveis veículos da imprensa
espírita.
Numa época quando pontificava verdadeira intolerância
religiosa e quando o Espiritismo e outras religiões
sofriam o impacto da ação exercida pela religião
majoritária, Caírbar Schutel também teve o seu Calvário:
um sacerdote reacionário e profundamente intolerante,
resolveu promover gestões no sentido de fechar as portas
do Centro Espírita, usando como arma ardilosa uma
campanha persistente no sentido de fazer com que a
farmácia de Caírbar fosse boicotada pelo povo.
Com o apoio do delegado de polícia, conseguiu deste a
ordem para o fechamento do Centro onde se difundia o
Espiritismo. Caírbar Schutel, no entanto, não era dos
que se intimidam e, contra o padre e o delegado,
levantou a barreira da sua autoridade moral e da sua
coragem. A ordem do delegado não foi respeitada por
atentar contra a letra da Constituição Federal de 1891,
e o valoroso espírita foi à praça pública protestar
contra tamanho desrespeito. O padre, não tolerando
aquela manifestação promovida por Caírbar, também
promoveu uma passeata de desagravo. Outros sacerdotes,
nessa época, já estavam em Matão, apregoando a
necessidade de se manter o "herético" circunscrito, de
nada se adquirirem sua farmácia, e, sobretudo proibindo
a todos a freqüência ao Centro Espírita.
Em face da tremenda pressão exercida, Caírbar anunciou
que falaria ao povo em praça pública, refutando ponto
por ponto todas as acusações gratuitas que lhe eram
atribuídas pelos sacerdotes. O delegado proibiu-o de
falar. Caírbar não acatou a proibição do delegado e,
estribando-se na Constituição, dirigiu-se para a praça
pública, falando aos poucos que, não temendo as
represálias do padre, tiveram a coragem de lá
comparecer. Este, por sua vez, expressou a idéia de que,
se a liberalíssima Constituição brasileira permitia esse
direito a Caírbar, a Igreja de forma alguma consentiria
e, aliciando um grupo de homens fanatizados, marchou
para a praça pública, cantando hinos e cantorias
fúnebres, portando, além disso, vários tipos de armas. O
objetivo da procissão noturna era de abafar a voz do
orador e atemorizar o povo.
Essa barulhenta manifestação provocou a repulsa de
algumas pessoas cultas da cidade, as quais, dirigindo-se
à praça, pediram a aquiescência do orador para, de
público, manifestarem a desaprovação àquelas
manifestações e responsabilizando o padre pelas
conseqüências danosas daquele desrespeito à Carta Magna,
afirmando que o orador tinha todo o direito de falar e
de se defender. Diante dessa reação, o padre ficou
assombrado e decidiu dispersar os acompanhantes, o que
possibilitou a Caírbar prosseguir na defesa dos seus
direitos e dos seus ideais.
Caírbar sabia ser amigo até dos seus próprios inimigos.
Sempre inspirava simpatia e respeito. Sempre feliz no
seu receituário, tornou-se, dentro em pouco, o Médico
dos Pobres e o Pai da Pobreza, de Matão. Além de
prescrever o medicamento, ele o dava gratuitamente aos
necessitados. Sua residência tomou-se um refúgio para os
pobres da cidade. Muitas pessoas eram socorridas pela
sua generosidade. Muitos recebiam socorros da mais
variada espécie, em víveres, em roupas e sobretudo
assistência espiritual.
O sentimento de amor ao próximo teve nele incomparável
paradigma. Estava sempre solícito e pronto para socorrer
um enfermo ou um obsediado. Atos de renúncia e de
desapego eram comuns em sua vida. Sua residência chegou
a ser transformada em hospital de emergência para
doentes mentais e obsediados. Em vista do crescente
número de enfermos, em 1912 alugou uma casa mais ampla,
na qual tratava com maiores recursos e com mais
liberdade todos aqueles que apelavam para a sua ajuda
fraternal.
No dia 15 de fevereiro de 1925, lançou o primeiro número
da "Revista Internacional de Espiritismo", órgão que
desde então vem circulando sem solução de continuidade.
Quando foi rasgada a Constituição ultra-liberal de 1891,
Caírbar Schutel foi à praça pública apoiando a Coligação
Nacional Pró- Estado Leigo, entidade fundada no Rio de
Janeiro pelo Dr. Artur Lins de Vasconcelos Lopes. Nesse
propósito combateu sistematicamente a pretensão,
esposada por alguns grupos, de se introduzir o ensino
religioso obrigatório nas escolas. Certa vez programou
uma reunião num cinema de cidade vizinha para abordar
esse tema. Na hora aprazada ali estavam apenas alguns
dos seus amigos, dentre eles José da Costa Filho e João
Leão Pitta. Caírbar não se perturbou. Mandou comprar
meia dúzia de foguetes e soltou-os à porta do cinema.
Daí a 20 minutos o recinto estava repleto.
Foi pioneiro no lançamento de programa espírita pelo
rádio, pois em 1936 inaugurou, pela PRD- 4 -- Rádio
Cultura de Araraquara, uma série de palestras que mais
tarde publicou num volume de 206 páginas.Como jornalista
escreveu muito. Durante muito tempo manteve uma secção
de crônicas e reportagens no "Correio Paulistano" e na
"Platéia", antigos órgãos da imprensa leiga.
Sua bibliografia é bastante vasta, dela destacamos as
seguintes obras: "Espiritismo e Protestantismo",
"Histeria e Fenômenos Psíquicos", "O Diabo e a Igreja",
"Médiuns e Mediunidade", "Gênese da Alma", "Materialismo
e Espiritismo", "Fatos Espíritas e as Forças X",
"Parábolas e Ensinos de Jesus", "O Espírito do
Cristianismo", "A Vida no Outro Mundo", "Vida e Atos dos
Apóstolos", "Conferências Radiofônicas", "Cartas a Esmo"
e "Interpretação Sintética do Apocalipse".
Fundou também a Empresa Editora "O Clarim", que passou a
editar livros de outros autores. Caírbar Schutel foi um
homem de fé, orador convincente, trabalhador
infatigável, dinâmico, realizador e portador dos mais
vivificantes exemplos de virtude cristã.
Fonte:http://www.comunidadeespirita.com.br/biografias/bio%20cairbar%20de%20souza%20schutel.htm
Espíritas!
Amai-vos eis o primeiro. ensinamento; instruí-vos,
eis o segundo.
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